Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Como surgiu o Tribo Sul?

Tribo Sul: Tudo começou em finais de 1999, a quando de nossa passagem por asilo, nas terras de Nelson Mandela (África do Sul), onde vivemos desde 1998 até 2012. Checovara, Dj Cavera e eu (Pipokahz), que já fazíamos Rap em grupos anteriores ainda em Luanda, decidimos formar a TRIBO “Carruagem familiar com um determinado laço cultural” e SUL “Sobreviventes Unidos à Luta”. Depois de algumas performances em clubes e espaços de Rap, apresentamo-nos ao mercado musical em 2000 com o single “Faz again”, neste mesmo ano nos juntamos ao Masta Joy, até que 2 anos mais tarde o Checovara abandonou a vida musical.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Qual a ideologia do grupo?

Tribo Sul: Nunca olhamos taxativamente para estes detalhes, sem querer elas focam-se para gente desde a preocupação em denunciar a má governação, a descriminação social e o sistema capitalista opressor que patrocina a miséria que está automaticamente ligada com os crimes e a ditadura.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras - Quantos CDS o grupo tem gravado?

Tribo Sul: Diferente de muitos, ao longo dos 15 anos de grupo temos gravado apenas 2 CDs. O álbum GRITO DE LIBERDADE lançado em 2003 e o EP – REFLEXOS DO MUSSEGUE em 2004. Se tudo correr como planificado, sai nos próximos 2 meses o TRIBOSULandu.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: O grupo faz algum trabalho social junto à comunidade ? Que tipo?

Tribo Sul: Através da Slam Jam project, levamos o nosso Rap para as escolas, universidades e cadeias, ajudando com que os jovens usam o conhecimento para se expressarem, livre de estereótipos políticos e econômicos. Mas desde que voltamos a viver em Angola nada tem sido feito. O partido no poder não permite nada que seja feito sem o uso das suas cores, rótulos e selos.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Quais os vídeos e músicas a família TRIBO SUL tem para mostrar pro público do HIP HOP SEM FRONTEIRAS?

Tribo Sul: Temos 2 vídeos sob nosso selo e outros 3 com direitos de terceiros. Estamos agora a gravar o nosso DVD, em que se prevê a inclusão de novos 6 vídeos, depoimentos e trajetória.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras:Em 2010 houve uma mudança política significativa na Angola, que impacto trouxe pra população?

Tribo Sul: Não sei de que mudança te refere, mas não me lembro de alguma que seja significativa com impacto ao povo em 2010. Acredito que o ano com mudança significativa e histórica é 2011. Ano que aos 7 de março o povo venceu o MEDO e disse BASTA, tendo conhecido o marco e o princípio dos protestos de rua. O número 070311 passou a simbolizar o crescente movimento contra o presidente José Eduardo dos Santos, sua governação e toda sua cúpula. Ou seja, neste ano começou a guerra que vivemos, entre governo e população.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Quantos shows a família faz por mês?

Tribo Sul: Nos primeiros 3 anos fazíamos em média 6 shows por mês, alguns deles em várias localidades sul-africanas e Angolana, bem como em países como Namíbia, Botsuana, Zâmbia e Tanzânia. Por indisponibilidade coletiva do grupo, nos últimos tempos temos feito apenas 1 por ano, mas devido o próximo álbum, temos em agenda alguns shows para até o final do ano.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Quanto vocês cobram pra fazer um Show?

Tribo Sul: Já lá se foram os anos que tínhamos valores fixos para os diferentes tipos, objetivos e dimensão dos eventos. Infelizmente os shows em Angola continuam sendo para os artistas uma atividade revestida por amor a camisola (amaldiçoado é o rapper que cobra para o show), enquanto os promotores fazem dela uma fonte de receita. Aqui, reina a exploração artística (risos).

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Vocês têm pretensão de vir para o Brasil?

Tribo Sul: Sim, temos muitos amigos e apreciadores do nosso Rap no Brasil. Inclusive, temos tido alguns convites, mas a disponibilidade nunca facilitou. A propósito, aproveito a oportunidade para mais uma vez se desculpar das promotoras e amigos, bem como agradecer a confiança do pessoal.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Quem faz as músicas, letras e produções das músicas?

Tribo Sul: Eu trato das letras, o Dj Cavera faz as produções e o Masta responde pela supervisão de toda a musicalidade. Ou seja, a gente faz tudo, desde os áudios aos vídeos, a partir do nosso próprio selo “Alliança Camponesa”.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: O Governo angolano apoia o esporte? Qual o esporte que tem mais força no país?

Tribo Sul: Dizem que sim, e usam como prova o facto de ser o governo que através das empresas públicas suporta mais de 80% dos gastos com o esporte praticado no país. Mas acredito que não apoiam por amor ao esporte. Fazem para dizer que fizemos e parecerem heróis, sem esquecer-se da utilização da mesma para ações e benefícios políticos e pessoais, e que várias famílias e projetos sociais de primeira necessidade são ignorados em virtude dos milhões de dólares megalómanos que funcionam como plataformas de esquemas e comissões ilícitas.

Os angolanos têm paixão pelo futebol, embora o basquetebol, Hóquei patins e o Handebol serem as com maiores evidências a nível internacional. Quem é craque no Brasileirão tem seguidores em Angola (risos)…

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Qual o ministério do governo angolano que cuida das práticas religiosas e qual a religião predominante?

Tribo Sul: As práticas religiosas são cuidadas pelo Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos, órgão tutelado pelo Ministério da Cultura. Sendo que a religião predominante é a cristã, na qual mais de 90% das Ceitas são utilizadas como células partidárias e atividades ilícitas. É ridículo, temos mais igrejas a venerarem José Eduardo dos Santos, do que Cristo.

Espero não estarmos diante do surgimento de uma nova religião (Eduardização) se ramificando do cristianismo.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Referente às práticas de religião qual acontecimento está causando polêmica e discussão entre as Províncias de Huambo e Benguela? Como a família Tribo Sul se posiciona a respeito do acontecimento.

Tribo Sul: Não tenho conhecimento de qualquer discussão entre as Províncias de Huambo e Benguela. Mas se referindo as práticas religiosas, o acontecimento que abalou aquela região nos últimos meses é referente ao Massacre que ocorreu na localidade de São Pedro Sumé, no município de Caála, província do Huambo, no passado dia 16 de Abril. Tendo havido confronto entre membros da Igreja do Sétimo Dia a Luz do Mundo, fundada e liderada pelo cidadão José Julino Kalupeteka, e a polícia a par das forças armada angolana, causando 9 mortos entre os policias, e entre os fieis, centenas de mortes, outras centenas de feridos e tantos outros que até hoje continuam desaparecidos.

Aqui é assim, quem não é a favor do partido no poder é visto como inimigo. E isto é motivo mais do que suficiente para te encomendarem o caixão. Recordar que a Ceita foi útil ao partido no poder nas eleições passadas, e como a Ceita não viu seus interesses realizados, passou a ser uma peça fora do xadrez do partido, tendo sido associado hoje ao maior partido da oposição. É tudo uma questão politica. Aproveitando o espaço cedido pelo Hip-hop sem fronteiras, peço a quem de direito que libertem o Kalupeteka e todos os outros presos políticos que esta democracia militarizada criou.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Qual a classificação da Angola na questão da saúde? E qual a doença mais grave do país?

Tribo Sul: Desconheço a nova atualização classificativa da OMS, mas de certeza que nada diferencia. Continuamos com apenas um médico para cada 13 mil habitantes, temos mais cemitérios entre os oficiais e não oficiais que hospitais, temos tudo, menos medicamento em tais hospitais, mais agências funerárias que centro médicos de urgências, temos o maior mercado com fármacos adulterados na África Austral. Ou seja, o país é doente.

Dizem que a Malária é a primeira causa de mortalidade no país. Mas eu acredito que o mais grave é a falta de médicos capazes e fieis a profissão, bem como a falta de medicamento.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Que medidas o governo adota pra resolver sobre as epidemias?

Tribo Sul: Para combater a epidemia, o governo tem apostado na prevenção que recai sobre a distribuição e utilização de redes mosqueteiras, a pulverização, a destruição dos focos de contaminação. Embora, acredito que tem se feito muito pouco. Salientar que tal como enfatiza o Rap de um parceiro, temos mais lixo nas ruas do que peixe no mar.

Sandrinha - Hip Hop Sem Fronteiras: Deixem uma mensagem pra nação do HIP HOP SEM FRONTEIRAS.

Tribo Sul: Angola agradece pelo espaço cedido! Continuem Hip Hop sem fronteiras. Amem bastante, cuidem das pessoas que amam, façam com respeito tudo àquilo que gostam. Beijos e Abraços a todos os leitores, amigos e seguidores.

Seguem:


https://soundcloud.com/tribosul
http://www.cdbaby.com/cd/tribosul
http://www68.zippyshare.com/v/uPpwPINy/file.html
http://www93.zippyshare.com/v/qGXe02BU/file.html
http://www.mediafire.com/download/sepidr3vyd3nxyw/Tribosulandu+%28Single+Oficial%29.zip
https://www.youtube.com/watch?v=-hTfDh9QfBY&feature=youtu.be
https://www.youtube.com/watch?v=y4ZjVD1_100